Iraque 5.0 - Entre o Ver e o Olhar



Haverá certamente opiniões diferentes. O que mais me impressiona numa guerra, não é o que os olhos veem. O que mais me impressiona das 10 guerras que já vivi por dentro, é algo que nunca poderá ser captado por uma fotografia ou analisado por números de mortos, feridos, incapacitados, violações, órfãos, e por aí fora... Esta dor que se sente na pele que eu penso que poderia ser a minha é horrenda, mas não é o que mais me impressiona. Não são os corpos estilhaçados, desmembrados. Não é o cheiro a corpos queimados. Não são os que morrem à fome. Não são os que morrem por doenças que se tratam com poucos euros. Não são os filhos a chorar as mortes dos pais, ou os pais a chorar a morte dos filhos. O que mais me impressiona são as crianças que não choram. Que não têm expressão. Que parecem vazias de emoções. E esta história que vivi no norte do Iraque, aquando da guerra de Mosul, simboliza a maior dor que carrego até hoje, e que imagino, pouca gente compreenderá. Imagino também que não vou ter a arte de desdobrar o que sinto em palavras. Mas vou-me esforçar.

Acredito que quase tudo de importante que aprendemos na vida, nunca é à primeira. Acredito no fenómeno de doubble hit . O primeiro golpe deixa-me atordoado e o segundo atira-me ao chão. E para compreender qualquer fenómeno é preciso primeiro olhar, e depois ver. Ver implica fazer um esforço para processar aquilo que nos envia ao cérebro o nosso olhar. E a mim demorou-me algum tempo a ver esta criança.

Entre vagas de feridos, bloco operatório, cuidados intensivos, e o tempo para sobrevivermos, nós próprios, às dores que nos rodeavam no dia a dia, sobra pouco tempo para reflexões que depois só o tempo as vai maturando e clareando dentro dos nossos pensamentos... Todos os dias passávamos visita rapidamente às enfermarias para definir os tratamentos e as re-intervenções no bloco operatório. Amputações que precisam de ser revistas, pensos e enxertos de pele para os queimados e o que mais fosse preciso... Estas visitas são também muitas vezes o momento em que de mais perto vemos a humanidade do povo iraquiano. Ouvimos pedaços de histórias de vida (e de morte), vemos os pais a cuidar dos filhos, irmãos a animarem-se entre braços partidos e pernas ao alto. Aqui vemos os sorrisos, a esperança, a compaixão, e os agradecimentos que nos arrepiam a alma como um choque eléctrico. Não há nada mais bonito e que nos alimente mais o coração que um genuíno Obrigado. Nesta curta visita da manhã, sentimos o pulso à gente.

E nesta visita matinal começou a agarrar a atenção este rapazinho cujo nome ninguém sabe, que teria uns 5 ou 6 anos, e que fisicamente não tinha doença nenhuma. E talvez por isso demorei tanto tempo a prestar-lhe atenção. Foram precisos muitos golpes/olhares, até que agarrou toda a minha atenção. Não sei bem como, mas terá sido trazido numa vaga de feridos de Mosul, até que começaram a reparar que não tinha família, e também não falava. E por isso o mantivemos na nossa enfermaria, algo como um caso social.

Estava sempre deitado na cama, presumo que se alimentava por instinto, e alguém queria que ele parecesse uma criança colocando-lhe peluches e brinquedos que ele segurava sem os ver. O olhar dele fazia-me ver a guerra como se naquele vazio espelhasse todos os males do ser humano. Ninguém sabe o que é que ele viu. Ninguém sabe o que ele sofreu. Ninguém sabe porque é que ele não fala. Mas todos imaginamos os porquês deste estado de “locked-in”. Este olhar dessensibilizou-se, desumanizou-se, perdeu-se e talvez para sempre... O que é que leva uma criança a deixar de sentir?
Todos os dias via esta criança durante algum tempo. Ao ver os feridos e os amputados e os queimados, eu já não vejo a guerra, passados uns dias. Mas nesta criança, no seu olhar eu via todos os dias a guerra bem por dentro. Eu via o epicentro, o olho do furacão da maldade humana, e da crueldade de quem se apodera do sofrimento dos outros para o seu umbigo. O que mais me impressiona numa guerra, é esta dor psicológica que não se mede, mas sente-se. Porque é que “decidiu” não falar?

Todos os dias eu via a guerra neste olhar. O que terá visto esta criança? Como é que se trata isto? Como é que se trata estes traumas psicológicos de miúdos e graúdos? Quanto tempo vão carregar nos seus olhares as dores de um mundo injusto, de um mundo que não os quer ver?

O planeta sentiu-se desconfortável no sofá, quando viu uma fotografia de uma criança síria morta de cara espetada nas areias da nossa Europa. De alguma forma tornou-se um icon da nossa visão da guerra da Síria e do drama dos refugiados. Mas a mim, o que me deu voltas ao estômago e lágrimas pela cara a baixo, foi outra fotografia, de outra criança da guerra da Síria. Uma criança, empoeirada e com manchas de sangue que não era dela, sentada dentro de uma ambulância sem expressão. Sem lágrimas, sem dor, sem sentimentos, sem ninguém lá dentro. Este olhar é o espelho da guerra.

Estas crianças são filhos de alguém... e no fundo, no fundo são filhos de todos nós.

Entre o ver e o olhar. O olhar deste menino de Mosul dizia-me o que ele tinha visto? Eu olhei para ele algum tempo até que o comecei a ver. E quando o vi, já não conseguia olhar para outro lado.

Todos os dias eu via a guerra neste olhar. O que terá visto esta criança?

E quem nós somos, está entre o para onde olhamos e o que vemos.

Entre o Ver e o Olhar.