Entrevista para a Rádio Sim/Renascença

Partilho aqui a entrevista que fiz há dias para a Radio Sim/Renascença . A partir dos 12´15´´, tive das conversas sobre os Médicos Sem Fronteiras e a Medicina Humanitária que mais gostei até hoje. A excepcional preparação da entrevista, levou-me a conversar muito abertamente sobre assuntos cuja profundidade nem sempre é fácil de atingir. Foi das poucas vezes q fiquei com vontade de ouvir o que disse, porque sai muito sensibilizado e em contacto com os meus sentimentos q considero mais bonitos.
"Se um dia me acontecer alguma coisa, espero que não valorizem mais a minha vida do que a daqueles pelas quais luto e que os Médicos Sem Fronteiras representam!"

Triplete

República Centro-Africana, Bangui, 2016

Há dias bons e dias maus...

Doentes que morrem que não "precisavam" de morrer... Por vezes os desafios, estão nas mais pequenas coisas... O calor, as regras de segurança, os telefones q mal funcionam... Há dias, q as noites mal dormidas, e as frustrações profissionais, nos levam a pôr tudo em causa! Mas há dias bons, dias mágicos, em que nos sentimos a contribuir, por um mundo melhor...quando vemos a formação contínua a ter efeitos prácticos e significativos, quando doentes graves melhoram e saem do hospital com um sorriso.... Mas talvez o momento que uniu toda a equipa na magia duma simbólica consagração, foi neste momento "triplete"! 3 rapazinhos centro-africanos, nasceram cheios de saúde, e a mãe arregalou os olhos de alegria :))) O milagre da vida x3, numa terra onde quase só há pesadelos, renovou as energias de toda a equipa dos Médicos Sem Fronteiras, q insistem a prestar cuidados de saúde de qualidade a gratuitamente um pouco por todo um país que não tem nada! 47, 48 e 49 foram minutos mágicos, na Maternidade de Bangui! E por vezes a vida é bela :)))

Faz com que isto chegue muito longe!

Quando há Sol, não é para todos!

Quando há Sol, não é para todos.

Estava com medo. Não sou diferente dos demais, uma guerra assusta. E os contornos que esta guerra civil atingiu, com uma enorme exposição mediática, faziam-me crer que seria diferente das outras... Esta foi a minha 4a guerra, enquanto médico a trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras, depois de Congo, Paquistão e Afeganistão. A experiência ajuda a lidar com as emoções, pois esta missão não seria claramente para principiantes. No entanto, é doloroso entrar no avião, deixar a sofrer as pessoas de quem mais gosto, e ao olhar para baixo pela janela do avião, despeço-me da minha querida cidade do Porto, com uma lágrima no canto do olho, não sabendo se não será a última vez que vejo este meu grande amor, e tudo o que ele representa para mim... Tenho medo, mas nem hesitei, quando me foi proposto ir para a Síria. As minhas motivações superam largamente os meus medos...talvez ao ler este texto compreenderão porquê.

Por vezes perguntam-me: “ Como é possível arriscares a tua vida?” Normalmente sorrio, enquanto respondo para dentro em silêncio: “Como é possível não o fazer?”

Fui sozinho, directo para a Turquia, com o meu cachecol do FCPorto, que tem super poderes, porque representa os que levo comigo, enche-me o coração, e faz-me sentir mais forte. Aterrei na cidade de Hatay, já bem perto da fronteira com a Síria, onde se reunia esta equipa, que iria reabrir o hospital no norte da Síria, que fui evacuado pela crescente ameaça do Estado Islâmico. Não há tempo a perder, fui directo para uma reunião, onde nos explicavam o plano, de como iríamos entrar na Síria, esmiuçando todos os cuidados a ter, assim como, todas as regras de segurança... O coração aperta, e sinto um nó na garganta, quanto vemos no mapa os cerca de 250 Kms, que teremos que fazer de estradas na Síria, com diversas zonas, onde os bombardeamentos são frequentes....e começo aqui a sentir a guerra.

Nessa noite, achei ouvir bombardeamentos, pois já estava muito perto da Síria, mas provavelmente era o meu imaginário.

No dia seguinte viajamos até à cidade Killis, pois embora longe seria o único ponto de fronteira em que a Turquia nos permitia entrar. Killis, fica já colado à fronteira com a Síria, e nas imediações o nosso campo de visão, é invadido por campos de refugiados sírios, e vemos nas suas caras a dor de um povo, órfão de um pais, com uma alma sofrida e massacrada. Nessa noite, a última antes de passar a fronteira, vamos beber a última cerveja, porque na Síria estamos proibidos, e nesse que era o único bar de Killis, um grupo de homens Sírios, bebem e dançam uns com os outros como se não houvesse amanhã....leio no seu desprendimento uma mistura explosiva de alegria por terem fugido à guerra, com a tristeza profunda de quem abandonou a sua amada pátria...muito intenso. Fez-me pensar...

Bem de manhãzinha, atravessamos a fronteira....a pé! Pois não são permitidos veículos. A policia turca carimba o nosso passaporte, e depois fazemos uns Kms a pé bem carregados, em sentido contrario ao dos refugiados... e do lado de lá, na Síria, não há ninguém para nos carimbar o passaporte, mas sim, uma série de homens armados, de aspecto duvidoso, mas são do Free Syrian Army (moderados), a oposição ao regime que luta pela democracia, contra o ditador Bashar Al Assad. Aqui temos 2 carrinhas à espera, e partimos em direcção ao nosso destino, perto de Idlib, bem próximo das linhas da frente do conflicto... As nossas 2 carrinhas, têm o logo dos MSF, assim como escrito em árabe “Médicos Sem Fronteiras”, e é apenas isto que nos protege... Atravessamos uma boa parte do norte da Síria, e eu vinha colado à janela a absorver esta paisagem, absolutamente lunática, com vilas e aldeias abandonadas, onde as marcas de guerra, com casas bombardeadas, não deixam dúvidas dos porquês de quem largou tudo... Em alguns momentos passamos por 4x4s de caixa aberta com metralhadoras enormes, que nos dão um friozinho na barriga, bastante desconfortável, mas vamos nos habituando....torna-se normal a presença da máquina de guerra....

Talvez o momento que guardo com mais carinho até hoje, terá sido a nossa chegada à vila que seria a minha casa e onde se encontrava o pequeno hospital... Os locais sabiam da nossa chegada, e celebraram este momento...de uma forma que até dói na alma tentar descrever...não consigo segurar as lágrimas ao transmitir-vos isto... Gritos de alegria, olhos húmidos de emoção, palavras e abraços quentes a pessoas (nós) que não conheciam....o excitamento daquele povo transbordava em cada respiro: Os Médicos Sem Fronteiras voltaram! Isto significa que a ausência total de cuidados de saúde num raio de dezenas ou centenas de Kms, acabou...mas muito mais do que isso...sentem que nem todos os abandonaram...a nossa presença personifica a esperança, de quem já não sabe a que se agarrar...e só ai sem ter salvo (ainda) nenhuma vida, já clarifiquei na minha cabeça, que valeu a pena, ter deixado os meus queridos a sofrer em Portugal. Percebem agora?

Os MSF, tinham evacuado este hospital, pela transformação do contexto cultural, devido à pressão da radicalização de grupos extremistas, que cada dia mais condicionavam todos em seu redor... As pessoas viviam com medo duplo: do sanguinário ditador, que não hesita em matar quantos pode, e este oportunismo de grupos radicais islâmicos, que moldavam e aterrorizavam, todo um povo bastante moderado e humanamente fantástico...

Numa gelada manhã de inverno, na minha inocência apreciava um bonito nascer do sol, num céu azul até perder de vista, e comentei com os locais que trabalhavam comigo: “Que lindo dia de sol!” ...mas a resposta foi pronta e muito clara....”Está um dia horrível....o céu está limpo...eles vão voar!” Engoli em seco, e congelei em silêncio, e não tardou muito a avistar um MIG, da força aérea Síria, a sobrevoar a zona, a escolher os alvos a bombardear.... É no mínimo estranho sentirmo-nos um alvo, só porque sim.... E ai, dei por mim a desconstruir, uma verdade universal, da minha visão mágica e holística da vida e da sua verdadeira essência: “Quando há Sol é para todos!” .... Não! Para alguns, um dia lindo, significa temer pela vida, e olhar os céus, à mercê de maldades atrozes, e impotentes perante a força da ganância pelo poder....

“Quando há Sol, NÃO é para todos!”

Várias vezes nos refugiávamos num bunker do hospital quando éramos sobrevoados, por aviões ou pior ainda pelos helicópteros... Assim como passei noites no bunker da casa, quando os rockets aleatórios, faziam tremer o chão estrondosamente....mas senti-me bem, pela magnitude do significado que dava à presença dos MSF, num cenário tão complicado.

Sou médico, fico feliz quando sinto que fiz a diferença, quando salvo vidas....e salvamos muitas, crianças, mulheres, velhos e novos, inclusive homens de grupos extremistas, que se calhar noutra circunstância nos poderiam querer fazer mal, mas nós não julgamos....nós salvamos vidas! E guardo com um prazer indescritível, momentos de horas e horas de trabalho, para cumprir a missão a que me propus, e que define todos aqueles que acreditam nos mesmos ideais que eu! E será essa a minha grande conquista pessoal...as vidas que eu salvei, e que no imediato me fazem sentir especial, e me motivam para continuar....mas esta é apenas uma das razões que faz tanto querer ir.... A outra é bem maior! A outra é por ti que me estás a ler... É por todos que sei que os MSF representam, por este mundo fora... É pelos milhares que não se conseguem fazer ouvir, que não querem mais guerras...que preferem mandar ajuda ou invés do ridiculamente estúpido contra-senso de mandar mais bombas.

Eu, Tu, Nós, os Médicos Sem Fronteiras, e muitos mais, levam à letra a premissa que sustenta a humanidade: Todos os Seres Humanos são Iguais!

E o meu convívio de grande proximidade com o povo Sírio, em que nas suas histórias de vida, me imaginava, vezes sem conta, no exercício, que embora doloroso é onde eu encontro a minha alma mais bonita e acima de tudo mais honesta! E se fosse a minha família? E se fosse a minha casa? E se fosse o meu pais? Que pensaria eu de uma inteira humanidade que (n)os abandonou?

“Quando há Sol, não é para todos!”

Lá passei o meu Natal. Tive saudades, mas não me custou muito. Custou-me sim, o dia, em que me fui embora, e um dos nossos tradutores, agora amigo Faut, me foi levar à fronteira por questões de segurança. Odeio despedidas... são demasiadas emoções. Mas esta foi claramente a pior! Eu vinha embora, a caminho da minha segurança e conforto, e assim virava costas a pessoas que sei porque o provaram, que davam a vida por mim, e foi neste turbilhão de emoções, que o Faut de sorriso na cara à medida que me afasto de mochila às costas me diz: “ Dont forget about us, Gustavo!”, e de rajada respondi: “Never, my dear friend, Never!” bati no coração com muita força e sorri... rapidamente virando as costas, para que ele não visse, que me ia desfazer em lágrimas...

E com isto, podia contar-vos mais mil e uma histórias, para que exercitassem, algo que tem tanto de difícil como de importante... a capacidade de empatizarmos com vidas que nos parecem longínquas, e depois apenas e só agir, como gostaríamos que agissem connosco.

Honestidade e Justiça....porque,

“Quando há Sol, Não é para todos!”



Tenho Tantas Saudades Tuas, Porto

(escrito na República Centro-Africana, em Abril 2016)

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Estou longe, e por isso só te vejo quando fecho os olhos, e me transporto, para ti. Fui eu que pus longe, foi por minha culpa que nos afastamos, mas nem por isso deixo de morrer de saudades tuas... Saudades que asfixiam, saudades que quase me matam... Não fosse o meu orgulho e correria para ti, sem demora, e saltava todas as barreiras para te abraçar, agora mesmo e bem forte...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Se ao menos houvesse um dia, em que não acordasse a pensar em ti.... Se ao menos houvesse um dia em que não me deitasse em cima dos teus pensamentos... Se ao menos houvesse apenas, e apenas só um dia em que eu não te amasse...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Deixei-te para que te orgulhasses de mim, deixei-te para ficar mais forte, por ti e para ti... Deixei-te, porque faço parte de ti, e tudo faço para que essa pequenina parte se torne mais bonita e mais nobre... Deixei-te porque sei, que mesmo sem estar o teu lado, cada dia que passa te amo mais... Deixei-te, mas sou e serei sempre teu...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

O que dava para te ver mais uma vez... O que dava para que me olhasses, só mais uma vez... O que eu dava, para te sentir agora só por uns minutos... O que eu dava para caminhar ao teu lado... O que eu dava para que soubesses que te amo... O que eu dava para que me amasses... O que eu dava para que perdoasses pelo mal que te fiz... Dava tudo! Dava a minha própria vida! Dava tudo o que tenho, menos a memorias que tenho de ti, porque é o meu único pertence...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Quero tanto ver-te de todos os ângulos, quero tanto passar-te a mão, sentir-te nos dias bons e nos dias maus... Quero tanto saber como estás? No que tens pensado? De onde vens e para onde vais, Porto?... Será que ainda conheço o teu cheiro? Será que ainda tens o mesmo sorriso?.... Aí se soubesses a falta que me faz o teu humor?! Se soubesses, o quanto me ensinaste... Mesmo sem te ter, mesmo sem te ver o quanto me ensinas... Nunca desistas de mim...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Perdoa-me pelo que fiz. Perdoa-me pelo que não fiz. Perdoas? Será que chega se te disser que tudo o que fiz, foi por ti? Será que chega, se tudo o que fizer for para ti? Perdoas-me se souberes, que tudo faço para que seja melhor pessoa, é por ti e para ti... Mais não quero, que o teu orgulho! Que te honres, que eu seja teu!

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Sofro por não te ter, sofro por não te ver, mas gosto deste sofrer, gosto de tanto gostar de ti... És o melhor que tenho, mesmo quando não te tenho... Orgulho-me de te amar, orgulho-me de tanto gostar... Gosto mais de ti, do que da minha própria vida! Tu és a minha, vida, mesmo sem te viver...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

A tua beleza... aí se eu tivesse a arte de descrever a tua beleza. Mas talvez seja essa a arte, de só quem te conhece como eu conheço, sabe aprofundar a tua beleza... É uma descoberta... o maior tesouro que conheço... Uma história, uma personalidade, um carácter, incomparáveis e inquebráveis... Sabes bem, que tudo o que o quero é ser como tu.

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Eu volto, se ainda me quiseres... Eu volto se me deixares amar-te... Eu volto, se me olhares nos olhos, eu volto se me deixares entregar toda a minha vida para te fazer feliz... Eu volto só para estar ao teu lado... Eu volto, só para te dizer mais uma vez, que és tudo o que tenho... Eu volto porque quero te dizer, que TE AMO.


Se eu te voltar a ver, abraça-me com muita força e não digas nada...

Refugiados Sírios


Muita gente não quererá a minha opinião…pois então não leiam!

Mas sei que a nossa opinião será sempre reflectida, de alguma forma, com menor ou maior expressão em quem, em algum momento seja portador de importantes decisões … E na ausência da possibilidade de opinar de uma forma consequente sobre as atitudes do meu querido país para com aquilo que se passa no exterior das nossas fronteiras, resta-nos a conversa!! E se calhar no meio do bla, bla, bla, se possa esclarecer , e informar os mais desatentos!

Gostava que pudéssemos partir do principio que para o correcto julgamento do que quer que seja, é absolutamente indispensável, absorvermos a genuína visão das diferentes partes envolvidas… Pois, eu continuo recheado de dúvidas sobre as grandes questões que dominam a actualidade e dominam os (des)equilíbrios da humanidade… Quantos é que podemos receber? Quanto é que estamos dispostos a empobrecer para que “outros” deixem de correr risco de vida ou passar fome? Mas há algo que gostaria… ou mais até sinto que tenho a OBRIGAÇÃO, de escrever para quem quiser ler…. Sentir o pulso a este povo Sírio, não deixaria nem o mais desumano dos críticos dos refugiados, indiferente…

Eu ouvi as suas histórias, tentei perceber o que seria ter a minha família dividida pelas linhas da guerra civil…. Vi nas lágrimas de quem perdia os seus queridos, o reflexo duma alma de quem perdeu o seu país…. De quem sente que a sua terra, o seu porto seguro é agora um mar de dor e sofrimento… Muitos ostracizados por se recusarem a alinhar com o governo e matar os seus compatriotas…. mas nessa convicção tiveram de deixar para trás mulher e filhos… Que escolha é esta? Talvez a última que gostaríamos de fazer! Identifiquei-me com as pessoas! Fiz amigos! Sabia que muitos eram capazes de dar a vida por mim… Acreditam numa causa, na democracia! Mais não querem do que todos nós! Liberdade!

(Camião que por simpatia ao passar sem carga ajudava os refugiados,
a atravessar a fronteira da Síria para a Turquia, de cerca de 10kms)
Antes de Março de 2011, a Síria tinha 21-22 milhões de habitantes… mas o seu “querido” ditador respondeu aos apelos por democracia e liberdade com a maior violência imaginável, como expressão de uma raiva, inspirada na outrora eficaz estratégia do seu pai, em controlar as vozes de discórdia… Diz Bashar Al Asad, que no final ficarão apenas 6 milhões de Sírios vivos (apenas os Xiitas), e destrói, sem apelo nem agrado, os sonhos (legítimos digo eu) do seu povo, dizimou cidades, com recurso a qualquer tipo de estratégia que cause o maior número de mortos… Ninguém me contou…. vi e ouvi, esta máquina de guerra assustadora… Assim como vi e ouvi, os sonhos de um povo, amantes da sua pátria, unidos pela vontade de um mundo melhor….

Mas para a confusão de muitos, os terrores não acabam nesta guerra civil, mas na terrível e arrepiante ameaça a que agora chamamos Estado Islâmico… A opressão de proximidade desta força unida pelo ódio disfarçado de religião, fazia tremer de medo homens e mulheres….. que mais do que nunca…. encurralaram um povo entre a espada e a parede! O ódio cego de um ditador sem misericórdia, capaz de destruir todo o seu país e os 70% do seu povo para ficar no poder, E talvez a ideologia mais sanguinolenta do planeta, que nem é Estado, nem muito menos Islâmico… E assim, são 8 milhões de deslocados e 4 milhões de refugiados… Dispostos a correr todos os perigos pelo sonho de uma vida digna… 

(Eu nesse camião a passar a fronteira Síria-Turquia, e feliz
por ver a guerra pelas costas)
Acho pouco importante o ratio de muçulmanos que o meu país ou a europa ficará….. é a taxa de humanidade e consequente felicidade, a uma escala global que deve orientar as nossas reflexões e posteriores atitudes…

Atravessei a fronteira para dentro da Síria, claramente em sentido contrário à maioria do povo…. e por lá ter estado gostava de aqui deixar o meu testemunho de povo fantástico que me acolheu e tanto ensinou…. Quando meses depois, atravessei novamente a fronteira para a Turquia, antes de respirar fundo e sentir a liberdade, olhei para trás, e prometi a mim mesmo que nunca, mas NUNCA me iria esquecer daquele povo! Pois podia ser o meu!


Façam-se ouvir……é de pessoas que falamos….e não de números!

Indios e Cowboys

Indios e Cowboys.

Foi assim que eu cresci a ver filmes de Indios e Cowboys... E demorei algum tempo a perceber quem eram realmente os "bons" e os "maus"! 


Acompanhei desde muito cedo, a formação deste Estado Islâmico, ISIS, ISIL, Daesh, ou Dawla (Estado em árabe), curiosamente o nome que os Sírios mais frequentemente lhe atribuíam, no local onde eu estive. Poucos ou ninguém ao meu redor, sentiram o terror que os elementos do EI, são capazes de causar. Fui dos poucos, que não fiquei surpreendido pelos decapitações publicitadas no youtube, no início de 2014, pois já sabia do que eram capazes, e sabia também do seu grande negócio de raptos e resgates, que até então os ocidentais, fingiam e bem, que nada sabiam sobre o terror que alguns dos seus conterrâneos, quase todos jornalistas e humanitários, estavam a passar. Ao entrar na Síria, num dia que jamais me esquecerei, a presença das bandeiras pretas, barbas islâmicas, metralhadoras montadas em 4x4, e um ar profundamente ameaçador, fez-me sentir medo como nunca antes... Mas como quase tudo que absorvi na Síria, foi em discurso directo com o povo, que me apercebi da terrível fase que a já horrenda guerra civil, estava a passar... O povo tremia de medo, quase com medo de pronunciar a palavra.... Dawla... que eu no início nem sabia do que se tratava, pois o seu merchandising ainda estava a ser criado nos media do ocidente... A pressão do radicalismo, foi de uma intensidade e velocidade gritante.... As pessoas tinham medo de falar, medo de rir, proibidos de beber, e até de fumar.... mulheres obrigadas a taparem-se na totalidade, e tudo sustentado numa formatação ideológica imposta à força sustentada na ameaça e coação.... interpretação essa do Islão que em nada coincidia com os pilares basilares daquele povo... A minha enorme antipatia por este grupo, crescia em paralelo com a enorme admiração pelo povo Sírio, pelo seu amor à pátria, pela sua resiliência, e firmeza nas convicções.... contra os actos tenebrosos do seu sanguinário ditador Bashar Al-Assad e a agora (ainda) maior ameaça do EI... Tive o desprazer de várias vezes me cruzar com elementos do EI, e testemunhei a destruição psicológica que causavam naquele povo, e como se não fosse suficiente sofri imensamente aquando do rapto dos meus 5 companheiros e amigos.... Sofri mais com as bombas do Assad, mas logo percebi que o EI, seria uma muito maior ameaça!


Penso que a cabeça da maioria dividir-se-á, entre dois extremos:
1) Tratamento cirúrgico: Vamos matá-los a todos.
2) Tratamento médico: Compreender a doença e tentar antagonizar os mecanismos que lhes dão força.


1) Certamente o mais rápido e tentadoramente mais fácil, exequível no decorrer das nossas vidas. Mas só os mais desatentos nas aulas não percebem que é impossível. Que o ódio e a violência só metastiza em mais ódio e mais violência. Inviável!

2) Requer mais estudo, mais trabalho e mais tempo.... mas é a única solução e que teremos que ter a força para compreender que mesmo no rumo certo, já não seremos nós e também talvez não os nossos filhos a ver o sucesso da diplomacia.

Dissecando o ponto 2). Vejo com mais clareza o que não fazer, do que o que fazer. Certamente, relembrando os mais desatentos, não queremos mais Afeganistão e Iraque. A guerra do Afeganistão "celebra" agora 14 anos, e cada vez está pior.... A guerra do Iraque, motivou de uma forma directa e óbvia o aparecimento do EI.


Que ideologia sustenta o EI, e de onde vem o seu dinheiro? Islão Sunita, fundamentalmente Arabia Saudita e os demais da península arábica... E o dinheiro vem da hipocrisia de todos nós, que somos Charlie e Paris.... mas continuamos a ser coniventes com os interesses de quem os patrocina... e como se não chegasse, a tentação do negócio das armas é mais forte, mesmo para vender a quem nos quer matar.... Moral Ideológica? Dos USA?: só se for para rir! Da Rússia?: que com a desculpa que ataca o EI, nem disfarça ao atacar o Free Syrian Army, ou qualquer outro inimigo do seu aliado Assad. Da França?: que decidiu isoladamente bombardear a Líbia....porquê?? porque lhes apeteceu, no seu jogo geo-estratégico de dinheiro e poder..... e agora também a Líbia grande vítima do crescente poder do EI.... HIPÓCRITAS!


Onde é que estás a moral ideológica dos ocidentais? Não existe! Terroristas, mas num uniforme mais bonito!

Quem são os Indios e quem são os Cowboys? Quem são os bons e os maus?

Nem por um segundo ponderei em ser Charlie, ou em acrescentar a bandeira da França à minha foto ( com todo o respeito e até compreensão por quem o fez), mas doeu-me a alma profundamente por ver mais estas 130 vítimas, que acrescem às quase 300.000 na Síria, aos 4 milhões de refugiados, e ainda 8 milhões de deslocados internos Sírios, poupando tantas histórias de tantos países.... e por isso, não há dia que passe que não pense:

O QUE É QUE EU POSSO FAZER?

1) Não ser manipulado por quem me conta a história
2) Tolerar as diferenças
3) Mandar ajuda e não bombas
4) Escolher sempre o Amor em vez do Ódio
5) Centrar-me que a minha casa é o Mundo.
6) A minha família é a Humanidade
7) Aprender a perdoar...
8) E nunca, mas nunca me deixar levar pela indiferença.

Reflexões após a triste noite de Paris

O Ódio, alimenta-se de si próprio,
Apenas um conjunto de opiniões.... Opinar é importante, assim como não opinar! Ter a humildade para dizer que não temos opinião, é de uma sabedoria extrema, e sinal de enorme inteligência... que poucos conseguem fazer, mas que eu faço questão de usar um sem número de vezes, nas questões onde eu estou pouco ou mal informado... mas este não é o caso. Aqui tenho uma opinião, aliás, várias.... e acho que as pessoas subestimam o poder da opinião.... assim, como da não opinião! (repito!). Ouço, com frequência...." Há muitas crianças a morrer em África, mas eu não posso fazer nada....." e com isto desculpamos a nossa inacção pela dimensão do problema e distância do mesmo....claro que TODOS podemos fazer alguma coisa... nem que seja ter uma opinião... nem que seja Votar, nos que tem a capacidade de fazer alguma coisa.... neste caso pela fome em África....que me preocupa mais do que se o IVA ou o IRS vai oscilar 1 ou 2%...
Eu tenho opiniões e convicções fortíssimas, dando sempre espaço para estar errado....pois as certezas absolutas, são sinónimos de estupidez! Ora ai está uma coisa, que no nosso dia-a-dia podemos mudar em prol da paz no mundo.....Não ter certezas absolutas!
Certamente que as opiniões, mais constructivas e completas, virão à medida que nos afastamos dos triste eventos de 6afeira 13 Novembro. O que me leva logo à primeira opinião: Bombardear a já totalmente devastada cidade de Raqqa na Síria, no dia a seguir, é uma atitude inteligente? Não é! Revela uma vingança mesquinha, não ponderada, e provavelmente mais lenha para nos queimarmos! Dizem que mataram 130 elementos do Estado Islâmico (EI).... estranho que seja o mesmo número de mortos...não parece? E como sabem q são elementos do EI? E como sabem que não mataram civis? ....muito estranho! E logo 130?? Que coincidência!
O Terrorismo: como quase tudo na vida depende do ponto de vista! O que aconteceu em Paris, é Terrorismo, penso que é consensual..... mataram pessoas que nada fizeram, civis que não tiveram qualquer acto de violência prévio...e  morreram apenas porque estavam lá, e alguém na sua plena consciência assim o decidiu! Este rótulo de "Terrorismo", serve para nós ocidentais podermos fazer o que quisermos, e quando quisermos.... e podemos pôr e tirar o rótulo conforme a nossa conveniência... O Hamas é terrorista, o exército de Israel, não tem culpa de nada pois é um exército legítimo! O Sadam Hussein é terrorista, e por isso não tem mal, matar centenas de milhares de pessoas inocentes, sem qualquer propósito... mas os USA, não são terroristas, nem os Ingleses, Espanhóis e Portugueses que os apoiaram em primeira instância.... Ou seja às 130 muito tristes histórias que nos comovem a todos de Paris..... multipliquem por 10!.... e depois outra vez por 10!!! e mais uma vez por 10!!!... e porque não outra por 10!!! e transportem as vossas lágrimas para todos estes Iraquianos que morreram sem ter feito mal a ninguém.... e digam-me: Quem é que são os Terroristas? O que me leva outra vez, à questão da gigante importância da nossa pequenez! Talvez se não tivéssemos eleito um senhor disposto em ir destruir um país fomentando sofrimento e ódios, e com um bocadinho de sorte os outros países também não o tivessem feito.... e pelo menos o Estado Islâmico não existia! A nossa opinião conta!
O extremismo Islâmico: na práctica pode-se dizer que nasce da ocupação dos Soviéticos no Afeganistão... e fortalece sustentado, ideologicamente falando, de uma atitude bélica contra comportamentos Imperialistas em países Islâmicos.... no final desta guerra, 1992, apontam as suas já muitas forças..... para aqueles ainda mais imperialistas, com propósitos de dominar e controlar o mundo..... os USA.... não os perdoando pela sua ambição desmedida de controlar tudo e todos (neste caso preocupados com os estados muçulmanos, claro).... com os aliados do costume! Terrível, este fenómeno extremista, impenetrável na crença divina, de interpretações do Islão, que nascem no início de há não muito mais de 100 anos no Egípto, mas que nos últimos tempos são centrados nos pensadores Wahabis da Arábia Saudita e países vizinhos.... Como derrotar uma ideologia? Matando as pessoas??! E aí os USA saíram à rua para festejar como nem no 4 de Julho, a morte de Osama Bin Laden, em Maio de 2011.... mas nem vendo a Paixão de Cristo de Mel Gibson, se aperceberam que matar uma pessoa só torna a ideologia, mais forte! E então o que fazer? Nada, talvez fosse o mais inteligente!
O Islão tem culpa? Eu acho que não! É a religião mais populosa da mundo, tem 1,8 biliões de pessoas (e a brutal esmagadora maioria é pacífica).... é verdade que a sua história é recheada de acontecimentos que envolvem a espada, ao contrário da vida de Jesus que é bem mais pacífica.... o que não impediu os Cristãos das maiores alarvidades da história, quer em nome de Deus, quer em nome de nada... O Islão é feito de pessoas (grande novidade!!), e a maioria são boas.... na minha leitura, só tenho pena que não exista uma hierarquia mais bem organizada, que permita saber.... quem fala em nome do Islão! Um Papa do Islão?! E assim perguntar-lhe-iamos: O que acha de quem mata em nome de Allah? O que acha dos que apregoam em muitas mesquitas pelo mundo actos de violência numa religião definidora da paz? Acho que deveria haver mais vozes "dominantes", por parte dos Mullahs e dos Imans a condenar estes criminosos... mas repito. A maioria dos muçulmanos, são pessoas maravilhosas que não fazem mal a ninguém.... como todos nós!
Quem alimenta o EI? : Para se fazer guerra é preciso muito dinheiro!!! Não basta acreditar muito em Allah! E de onde vem esse dinheiro? Certamente não sei nem metade da história... mas eu salientaria 3 pontos! 1) Islão Sunita...ou seja, em primeira análise, aquilo que a maioria se esquece, não por mal, mas porque não sabe... o maior inimigo do Islão.... é o Islão! Assim como acontece na Irlanda entre católicos e protestantes, mas a uma escala bem maior. O Islão que nós vemos como radical é Sunita... e odeiam os Xiitas ( que também sabem ser radicais)... mas como são muito menos (apenas 20%) não nos dão aqui chatices. O EI, nasce para combater o poder dos Xiitas no Iraque imposto por nós ocidentais, pós 2003.... e como o Bashar Al-Assad, o terrível ditador da Síria também é Xiita, os Sunitas motivam-se para o derrubar, neste xadrez do Médio-Oriente.... e quem é que os motiva: Os Sauditas e também, Dubai, Abu Dabi, Qatar! E quem é que dá maior negócio aos sauditas? Nós! Nós ocidentais! Money talks! O petróleo alimenta o extremismo Islâmico, e somos nós ocidentais os maiores compradores! 2) O petróleo que o próprio Estado Islâmico vende no mercado negro.... e quem o compra? Muita gente! 3) Resgates: Tem sido práctica corrente, o rapto de ocidentais, para comércio..... Eu, como não tenho nada contra os USA, aqui lhes faço a minha vénia.... não negoceiam com estes grupos, e muito bem... mas todos os outros Europeus, já pagaram milhões por algumas vidas ao EI, curiosamente muitos franceses.... e por isso deixo aqui já o meu desejo em vida. Se eu for raptado pelo EI, ou qualquer outra pessoa de má indole, deixem-me morrer.... pois a minha vida, não vale mais que as vossas!
Onde é que entra a Guerra da Síria? Há vários países ainda de rastos e sem resolução à vista pós primavera árabe (legitima e bonita luta pela democracia.....digo eu!) Mas há 2 países que estão feitos em MERDA: Síria e o Iemen.... O que é que têm em comum? Uma questão Sunita-Xiita fracturante.... O Iemen, seria importante para explicar o NOJO que é a política externa da Arabia Saudita, entre outras coisas.... mas interessa menos porque estrategicamente, não tem tanto interesse como a Síria. A Síria, vivia em paz, mas uma paz podre.... liderada por um ditador sem coração, que nem hesitou a matar o seu povo.... pois quem se opôs a ele foram os 70% da população Síria que são Sunitas.... Os Xiitas, prontamente apoiaram este sanguinário, diga-se Irão, Hezbollah (do Libano), e outros grupos xiitas do Iraque..... mas também convinha à Russia, declaradamente que as coisas continuassem como estão, e menos, mas também à China.... são poucos mas bons! A resistência Sunita na Síria ( O Free Syrian Army), teve o apoio do resto do mundo "indirectamente e às escondidas"... e como disse atrás, os radicais Sunitas do Iraque, também foram de braços abertos lutar contra os inimigos mais odiados... os Xiitas.... E assim, a destruição de um país por uma muito triste guerra civil, tornou-se terreno muito fértil, para a proliferação do extremismo Islâmico, numa questão absolutamente oportunista, e parasitária!
E os Refugiados? Eu aqui talvez responda de uma outra forma... a ver se não me perco no meu raciocínio! Quem me conhece, sabe que eu estive na Síria.... o que não me dá razão em nada, simplesmente me dá algo que é insubstituível, a vivência, a opinião bilateral (necessária para qualquer julgamento)..... e o incontornável exercício de nos pormos na pele dos outros, antes de opinar! Ver pessoas, na televisão, é incomparável a viver com elas.... e dai a magia de viajar, seja qual for o motivo ou o destino... Para mim, a solução para este que é o maior problema do Séc.XXI, passa pela proximidade, passa pelo cruzamento de vidas, pela compreensão mútua, e assim chegamos ao respeito pela diferença! Tenho a forte convicção, que qualquer um dos que me lê, que tenha a sorte como eu tive, de viver no Afeganistão, Paquistão e Síria, países chave, nesta problemática, perceberão, que as pessoas são igualmente maravilhosas, como todos nós, e jamais terão grandes dúvidas sobre o que são estes povos.... O Médico que fez o meu parto, era Preto.... como poderei eu ser racista?? No dia, em que as vossas vidas forem tocadas por alguém que reza, de joelhos 5 vezes por dia.... nunca mais irão tolerar um discurso anti-Islâmico!
O Ódio, é exponencial, e alimenta-se de si próprio....e lembrem-se, que o vosso dia-a-dia, é a solução para a paz no mundo!
A vossa opinião, conta! É mais forte do que parece!
É tão óbvio, que precisa de ser dito:
AMEM e AMEM-SE.....FODASSEEEEE!!

Querido Porto

Querido Porto,

Há muito que te queria escrever.
Gostava que soubesses o que sinto por ti.
Tenho para ti palavras muito simples para um sentimento tão complexo.

Ficarias surpreendido com o sem número de vezes que penso em ti. Passo horas no silêncio a reviver as tuas memorias. Gosto tanto de te sentir como de sentir a tua falta. Devo-te tudo e cobardemente nunca tu disse.
 
Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se não fosses tu, Porto, o que seria de mim? Quem seria eu, sem a tua inspiração, sem a tua força, sem a tua valentia? Preferia não viver a viver sem ti. Gosto de mim quando te sinto por perto. Enches-me a alma. Fazes-me bem. Desde há muito que sinto por ti uma atracção invisível, inquebrável, à prova de fogo, de bala, de dor, de lágrimas, de tudo!

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Adoro a forma como me contas a tua história, arrepia-me a cadência com que falas comigo. Quando me sento na tua igreja de São Francisco, perco-me na grandiosidade com que me contas, um dos períodos mais fascinantes da tua história, da nossa história. Nunca me canso de olhar para ti, pelo que foste, pelo que és, e pelo que ainda vais ser.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Sei que falas comigo, e eu ouço-te com atenção. Raros são os dias que não sinto o teu toque, e por vezes queria-te só para mim. Nunca me esqueço dos teus conselhos, naqueles dias em que tudo parecia perdido. Quantas já não foram as lágrimas que me limpaste só porque existes? Lembraste? Agora diz-me, como é que queres que não seja, hoje e sempre, apaixonado por ti? Lembro-me de tantas e tantas vezes, em que te fitava por horas na praça do cubo, e pensava para mim, naquele bom português que me ensinaste: “F####, és lindo e adoro estar dentro de ti!”

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se calhar não me levas a sério, ou ainda não percebeste porquê. Todas as vezes que vou à tua Sé, pasmo-me como se fosse a primeira vez. É mesmo verdade que tem 900 anos? Como é possível? Tão fresca, tão sólida, tão imponente, tão bonita esta tua Sé! Dai espreito sempre para o rio, e fotografo-te outra vez com os meus olhos, antes de começar a descer-te. E logo a seguir, mesmo sabendo, parece que sou sempre surpreendido...com a magistral Igreja dos Grilos. Talvez as vertigens da descida que a antecedem, ceguem as minhas memórias e tornem este meu espanto sempre virgem. E daí, faço questão de me perder na gravidade que me leva por ti, até ao rio. Todos os recantos me encantam, as varandas, as flores à janela, a roupa a secar nos estendais, o perfume da vida das tuas ruas, as tuas linhas brutas e caóticas, pouco pensadas que te dão tanto charme e carácter.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Quanto mais te conheço, mais te quero conhecer. Eu sei que não tens culpa das vezes que te virei as costas, fui eu que te deixei, mas quero que saibas que já sofri horrores de saudades tuas, tive momentos em que ao pensar em ti e no quanto sentia a tua falta, quase parava de respirar. Espero que saibas, que gosto muito de ver o mundo, mas nunca te traí, sempre foste tu, Porto, o dono do meu coração. Já fui feliz sem ti, mas nunca fui tão feliz como contigo, e só queria que estivesses lá para ver como eu me sinto quando estou a voltar no avião depois de algum tempo sem te ver e sem ouvir a tua voz. O meu coração quase arrebenta, quando sinto que estou perto de te voltar a tocar. Colo o nariz à janela do avião, e tento registar todas as formas de como te vejo, e choro! Choro literalmente baba e ranho, choro como um arrependido, choro de saudades, choro ao antecipar o iminente abraço que te vou dar, choro porque ainda estás ai, choro por gostar tanto de ti, choro por ser tão bom sentir a tua falta.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E o Adeus? Como me dói dizer-te adeus. Olho para ti, sem vergonha. Olho-te nos olhos, e faço questão de observar com atenção o máximo de linhas do teu corpo. Quero levar-te comigo, e tento compensar a falta que me vais fazer, as saudades que sei que vou ter sugando-te o quanto posso. Sento-me a olhar para o teu rio, e penso o que seria de mim se nunca mais te voltar a ver, faço-te promessas de amor, que espero que tenhas ouvido, recolho pedaços de ti para levar na minha mochila e faço questão que saibas que se não voltar, tudo o que eu fiz é pelo meu amor por ti. Mas claro, tu sabes que apesar do difícil que é escolher o que mais é que gosto em ti, é no teu mar, no teu oceano, que mais gosto de perder o meu tempo, perder no tempo e perder no teu tempo. Adoro olhar para o teu mar, fascina-me a forma como me inspira, a facilidade com que me molda a personalidade. É ao teu mar, que peço conselhos, é ao teu mar que peço tantas vezes o amparo para me manter de pé, e é ao teu mar que mais me custa virar as costas quando te deixo. Parece que só volto a respirar quando vejo o teu mar de novo. É o teu todo que me faz amar-te tanto, mas não te escondo, que do teu corpo o que eu amo mais é esta massa de água que me hipnotiza.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E se eu te disser que ainda não te disse nada. E se eu te disser que quase não comecei a fazer-te entender porque gosto tanto de ti. Porque me falta dizer-te qual é a tua pedra mais preciosa. Adoro a tua história, o teu centro, o teu peixe, o teu recorte sinuoso, da tua vista da Serra do Pilar, da forma como o teu rio chega ao teu mar e deste monstro musculado que é o teu Oceano Atlântico. Mas nada disto se compara ao quanto eu gosto da tua gente. Adoro a forma como moldaste o teu povo, a beleza da sua personalidade. Bonitas por fora há outras cidades no mundo, embora nenhuma chegue aos teus pés. Mas o que tu conseguiste fazer ao longo de toda a tua história, da pessoa que te habita, torna-te único, impar, imbatível e incomparável. Adoro sentir a tua gente, é mágica a simplicidade do seu puro sangue. Este sangue azul que ferve em pouca água, que vai sempre atrás das emoções, que não se esconde, que se orgulha do que é, e que transborda orgulho em ti. Este teu povo, de pura raça é o melhor que tu tens, é a tua faceta mais difícil de descobrir, mas de longe a mais bonita. Gente boa, gente nobre, gente que dava a vida para defender a tua honra. Pessoas que sem que tu saibas, tudo fazem para que tenhas orgulho nelas. Genuinamente fortes, cheias de vida, cheias da tua vida. Que bonita é esta tua gente. Orgulha-te muito disso, Porto! Não há alma como a alma das tuas gentes.

Gostava que soubesses o que sinto por ti. Gostava que soubesses que te amo, que te adoro, que não sei viver sem ti. Gostava que soubesses que dava a vida por ti, porque me deste tudo o que eu tenho. Gostava que soubesses que tudo o que queria era ser como tu.

Por todas estas palavras e por muito mais....

Gostava que soubesses o que sinto por ti..... PORTO!