Indios e Cowboys

Indios e Cowboys.

Foi assim que eu cresci a ver filmes de Indios e Cowboys... E demorei algum tempo a perceber quem eram realmente os "bons" e os "maus"! 


Acompanhei desde muito cedo, a formação deste Estado Islâmico, ISIS, ISIL, Daesh, ou Dawla (Estado em árabe), curiosamente o nome que os Sírios mais frequentemente lhe atribuíam, no local onde eu estive. Poucos ou ninguém ao meu redor, sentiram o terror que os elementos do EI, são capazes de causar. Fui dos poucos, que não fiquei surpreendido pelos decapitações publicitadas no youtube, no início de 2014, pois já sabia do que eram capazes, e sabia também do seu grande negócio de raptos e resgates, que até então os ocidentais, fingiam e bem, que nada sabiam sobre o terror que alguns dos seus conterrâneos, quase todos jornalistas e humanitários, estavam a passar. Ao entrar na Síria, num dia que jamais me esquecerei, a presença das bandeiras pretas, barbas islâmicas, metralhadoras montadas em 4x4, e um ar profundamente ameaçador, fez-me sentir medo como nunca antes... Mas como quase tudo que absorvi na Síria, foi em discurso directo com o povo, que me apercebi da terrível fase que a já horrenda guerra civil, estava a passar... O povo tremia de medo, quase com medo de pronunciar a palavra.... Dawla... que eu no início nem sabia do que se tratava, pois o seu merchandising ainda estava a ser criado nos media do ocidente... A pressão do radicalismo, foi de uma intensidade e velocidade gritante.... As pessoas tinham medo de falar, medo de rir, proibidos de beber, e até de fumar.... mulheres obrigadas a taparem-se na totalidade, e tudo sustentado numa formatação ideológica imposta à força sustentada na ameaça e coação.... interpretação essa do Islão que em nada coincidia com os pilares basilares daquele povo... A minha enorme antipatia por este grupo, crescia em paralelo com a enorme admiração pelo povo Sírio, pelo seu amor à pátria, pela sua resiliência, e firmeza nas convicções.... contra os actos tenebrosos do seu sanguinário ditador Bashar Al-Assad e a agora (ainda) maior ameaça do EI... Tive o desprazer de várias vezes me cruzar com elementos do EI, e testemunhei a destruição psicológica que causavam naquele povo, e como se não fosse suficiente sofri imensamente aquando do rapto dos meus 5 companheiros e amigos.... Sofri mais com as bombas do Assad, mas logo percebi que o EI, seria uma muito maior ameaça!


Penso que a cabeça da maioria dividir-se-á, entre dois extremos:
1) Tratamento cirúrgico: Vamos matá-los a todos.
2) Tratamento médico: Compreender a doença e tentar antagonizar os mecanismos que lhes dão força.


1) Certamente o mais rápido e tentadoramente mais fácil, exequível no decorrer das nossas vidas. Mas só os mais desatentos nas aulas não percebem que é impossível. Que o ódio e a violência só metastiza em mais ódio e mais violência. Inviável!

2) Requer mais estudo, mais trabalho e mais tempo.... mas é a única solução e que teremos que ter a força para compreender que mesmo no rumo certo, já não seremos nós e também talvez não os nossos filhos a ver o sucesso da diplomacia.

Dissecando o ponto 2). Vejo com mais clareza o que não fazer, do que o que fazer. Certamente, relembrando os mais desatentos, não queremos mais Afeganistão e Iraque. A guerra do Afeganistão "celebra" agora 14 anos, e cada vez está pior.... A guerra do Iraque, motivou de uma forma directa e óbvia o aparecimento do EI.


Que ideologia sustenta o EI, e de onde vem o seu dinheiro? Islão Sunita, fundamentalmente Arabia Saudita e os demais da península arábica... E o dinheiro vem da hipocrisia de todos nós, que somos Charlie e Paris.... mas continuamos a ser coniventes com os interesses de quem os patrocina... e como se não chegasse, a tentação do negócio das armas é mais forte, mesmo para vender a quem nos quer matar.... Moral Ideológica? Dos USA?: só se for para rir! Da Rússia?: que com a desculpa que ataca o EI, nem disfarça ao atacar o Free Syrian Army, ou qualquer outro inimigo do seu aliado Assad. Da França?: que decidiu isoladamente bombardear a Líbia....porquê?? porque lhes apeteceu, no seu jogo geo-estratégico de dinheiro e poder..... e agora também a Líbia grande vítima do crescente poder do EI.... HIPÓCRITAS!


Onde é que estás a moral ideológica dos ocidentais? Não existe! Terroristas, mas num uniforme mais bonito!

Quem são os Indios e quem são os Cowboys? Quem são os bons e os maus?

Nem por um segundo ponderei em ser Charlie, ou em acrescentar a bandeira da França à minha foto ( com todo o respeito e até compreensão por quem o fez), mas doeu-me a alma profundamente por ver mais estas 130 vítimas, que acrescem às quase 300.000 na Síria, aos 4 milhões de refugiados, e ainda 8 milhões de deslocados internos Sírios, poupando tantas histórias de tantos países.... e por isso, não há dia que passe que não pense:

O QUE É QUE EU POSSO FAZER?

1) Não ser manipulado por quem me conta a história
2) Tolerar as diferenças
3) Mandar ajuda e não bombas
4) Escolher sempre o Amor em vez do Ódio
5) Centrar-me que a minha casa é o Mundo.
6) A minha família é a Humanidade
7) Aprender a perdoar...
8) E nunca, mas nunca me deixar levar pela indiferença.

Reflexões após a triste noite de Paris

O Ódio, alimenta-se de si próprio,
Apenas um conjunto de opiniões.... Opinar é importante, assim como não opinar! Ter a humildade para dizer que não temos opinião, é de uma sabedoria extrema, e sinal de enorme inteligência... que poucos conseguem fazer, mas que eu faço questão de usar um sem número de vezes, nas questões onde eu estou pouco ou mal informado... mas este não é o caso. Aqui tenho uma opinião, aliás, várias.... e acho que as pessoas subestimam o poder da opinião.... assim, como da não opinião! (repito!). Ouço, com frequência...." Há muitas crianças a morrer em África, mas eu não posso fazer nada....." e com isto desculpamos a nossa inacção pela dimensão do problema e distância do mesmo....claro que TODOS podemos fazer alguma coisa... nem que seja ter uma opinião... nem que seja Votar, nos que tem a capacidade de fazer alguma coisa.... neste caso pela fome em África....que me preocupa mais do que se o IVA ou o IRS vai oscilar 1 ou 2%...
Eu tenho opiniões e convicções fortíssimas, dando sempre espaço para estar errado....pois as certezas absolutas, são sinónimos de estupidez! Ora ai está uma coisa, que no nosso dia-a-dia podemos mudar em prol da paz no mundo.....Não ter certezas absolutas!
Certamente que as opiniões, mais constructivas e completas, virão à medida que nos afastamos dos triste eventos de 6afeira 13 Novembro. O que me leva logo à primeira opinião: Bombardear a já totalmente devastada cidade de Raqqa na Síria, no dia a seguir, é uma atitude inteligente? Não é! Revela uma vingança mesquinha, não ponderada, e provavelmente mais lenha para nos queimarmos! Dizem que mataram 130 elementos do Estado Islâmico (EI).... estranho que seja o mesmo número de mortos...não parece? E como sabem q são elementos do EI? E como sabem que não mataram civis? ....muito estranho! E logo 130?? Que coincidência!
O Terrorismo: como quase tudo na vida depende do ponto de vista! O que aconteceu em Paris, é Terrorismo, penso que é consensual..... mataram pessoas que nada fizeram, civis que não tiveram qualquer acto de violência prévio...e  morreram apenas porque estavam lá, e alguém na sua plena consciência assim o decidiu! Este rótulo de "Terrorismo", serve para nós ocidentais podermos fazer o que quisermos, e quando quisermos.... e podemos pôr e tirar o rótulo conforme a nossa conveniência... O Hamas é terrorista, o exército de Israel, não tem culpa de nada pois é um exército legítimo! O Sadam Hussein é terrorista, e por isso não tem mal, matar centenas de milhares de pessoas inocentes, sem qualquer propósito... mas os USA, não são terroristas, nem os Ingleses, Espanhóis e Portugueses que os apoiaram em primeira instância.... Ou seja às 130 muito tristes histórias que nos comovem a todos de Paris..... multipliquem por 10!.... e depois outra vez por 10!!! e mais uma vez por 10!!!... e porque não outra por 10!!! e transportem as vossas lágrimas para todos estes Iraquianos que morreram sem ter feito mal a ninguém.... e digam-me: Quem é que são os Terroristas? O que me leva outra vez, à questão da gigante importância da nossa pequenez! Talvez se não tivéssemos eleito um senhor disposto em ir destruir um país fomentando sofrimento e ódios, e com um bocadinho de sorte os outros países também não o tivessem feito.... e pelo menos o Estado Islâmico não existia! A nossa opinião conta!
O extremismo Islâmico: na práctica pode-se dizer que nasce da ocupação dos Soviéticos no Afeganistão... e fortalece sustentado, ideologicamente falando, de uma atitude bélica contra comportamentos Imperialistas em países Islâmicos.... no final desta guerra, 1992, apontam as suas já muitas forças..... para aqueles ainda mais imperialistas, com propósitos de dominar e controlar o mundo..... os USA.... não os perdoando pela sua ambição desmedida de controlar tudo e todos (neste caso preocupados com os estados muçulmanos, claro).... com os aliados do costume! Terrível, este fenómeno extremista, impenetrável na crença divina, de interpretações do Islão, que nascem no início de há não muito mais de 100 anos no Egípto, mas que nos últimos tempos são centrados nos pensadores Wahabis da Arábia Saudita e países vizinhos.... Como derrotar uma ideologia? Matando as pessoas??! E aí os USA saíram à rua para festejar como nem no 4 de Julho, a morte de Osama Bin Laden, em Maio de 2011.... mas nem vendo a Paixão de Cristo de Mel Gibson, se aperceberam que matar uma pessoa só torna a ideologia, mais forte! E então o que fazer? Nada, talvez fosse o mais inteligente!
O Islão tem culpa? Eu acho que não! É a religião mais populosa da mundo, tem 1,8 biliões de pessoas (e a brutal esmagadora maioria é pacífica).... é verdade que a sua história é recheada de acontecimentos que envolvem a espada, ao contrário da vida de Jesus que é bem mais pacífica.... o que não impediu os Cristãos das maiores alarvidades da história, quer em nome de Deus, quer em nome de nada... O Islão é feito de pessoas (grande novidade!!), e a maioria são boas.... na minha leitura, só tenho pena que não exista uma hierarquia mais bem organizada, que permita saber.... quem fala em nome do Islão! Um Papa do Islão?! E assim perguntar-lhe-iamos: O que acha de quem mata em nome de Allah? O que acha dos que apregoam em muitas mesquitas pelo mundo actos de violência numa religião definidora da paz? Acho que deveria haver mais vozes "dominantes", por parte dos Mullahs e dos Imans a condenar estes criminosos... mas repito. A maioria dos muçulmanos, são pessoas maravilhosas que não fazem mal a ninguém.... como todos nós!
Quem alimenta o EI? : Para se fazer guerra é preciso muito dinheiro!!! Não basta acreditar muito em Allah! E de onde vem esse dinheiro? Certamente não sei nem metade da história... mas eu salientaria 3 pontos! 1) Islão Sunita...ou seja, em primeira análise, aquilo que a maioria se esquece, não por mal, mas porque não sabe... o maior inimigo do Islão.... é o Islão! Assim como acontece na Irlanda entre católicos e protestantes, mas a uma escala bem maior. O Islão que nós vemos como radical é Sunita... e odeiam os Xiitas ( que também sabem ser radicais)... mas como são muito menos (apenas 20%) não nos dão aqui chatices. O EI, nasce para combater o poder dos Xiitas no Iraque imposto por nós ocidentais, pós 2003.... e como o Bashar Al-Assad, o terrível ditador da Síria também é Xiita, os Sunitas motivam-se para o derrubar, neste xadrez do Médio-Oriente.... e quem é que os motiva: Os Sauditas e também, Dubai, Abu Dabi, Qatar! E quem é que dá maior negócio aos sauditas? Nós! Nós ocidentais! Money talks! O petróleo alimenta o extremismo Islâmico, e somos nós ocidentais os maiores compradores! 2) O petróleo que o próprio Estado Islâmico vende no mercado negro.... e quem o compra? Muita gente! 3) Resgates: Tem sido práctica corrente, o rapto de ocidentais, para comércio..... Eu, como não tenho nada contra os USA, aqui lhes faço a minha vénia.... não negoceiam com estes grupos, e muito bem... mas todos os outros Europeus, já pagaram milhões por algumas vidas ao EI, curiosamente muitos franceses.... e por isso deixo aqui já o meu desejo em vida. Se eu for raptado pelo EI, ou qualquer outra pessoa de má indole, deixem-me morrer.... pois a minha vida, não vale mais que as vossas!
Onde é que entra a Guerra da Síria? Há vários países ainda de rastos e sem resolução à vista pós primavera árabe (legitima e bonita luta pela democracia.....digo eu!) Mas há 2 países que estão feitos em MERDA: Síria e o Iemen.... O que é que têm em comum? Uma questão Sunita-Xiita fracturante.... O Iemen, seria importante para explicar o NOJO que é a política externa da Arabia Saudita, entre outras coisas.... mas interessa menos porque estrategicamente, não tem tanto interesse como a Síria. A Síria, vivia em paz, mas uma paz podre.... liderada por um ditador sem coração, que nem hesitou a matar o seu povo.... pois quem se opôs a ele foram os 70% da população Síria que são Sunitas.... Os Xiitas, prontamente apoiaram este sanguinário, diga-se Irão, Hezbollah (do Libano), e outros grupos xiitas do Iraque..... mas também convinha à Russia, declaradamente que as coisas continuassem como estão, e menos, mas também à China.... são poucos mas bons! A resistência Sunita na Síria ( O Free Syrian Army), teve o apoio do resto do mundo "indirectamente e às escondidas"... e como disse atrás, os radicais Sunitas do Iraque, também foram de braços abertos lutar contra os inimigos mais odiados... os Xiitas.... E assim, a destruição de um país por uma muito triste guerra civil, tornou-se terreno muito fértil, para a proliferação do extremismo Islâmico, numa questão absolutamente oportunista, e parasitária!
E os Refugiados? Eu aqui talvez responda de uma outra forma... a ver se não me perco no meu raciocínio! Quem me conhece, sabe que eu estive na Síria.... o que não me dá razão em nada, simplesmente me dá algo que é insubstituível, a vivência, a opinião bilateral (necessária para qualquer julgamento)..... e o incontornável exercício de nos pormos na pele dos outros, antes de opinar! Ver pessoas, na televisão, é incomparável a viver com elas.... e dai a magia de viajar, seja qual for o motivo ou o destino... Para mim, a solução para este que é o maior problema do Séc.XXI, passa pela proximidade, passa pelo cruzamento de vidas, pela compreensão mútua, e assim chegamos ao respeito pela diferença! Tenho a forte convicção, que qualquer um dos que me lê, que tenha a sorte como eu tive, de viver no Afeganistão, Paquistão e Síria, países chave, nesta problemática, perceberão, que as pessoas são igualmente maravilhosas, como todos nós, e jamais terão grandes dúvidas sobre o que são estes povos.... O Médico que fez o meu parto, era Preto.... como poderei eu ser racista?? No dia, em que as vossas vidas forem tocadas por alguém que reza, de joelhos 5 vezes por dia.... nunca mais irão tolerar um discurso anti-Islâmico!
O Ódio, é exponencial, e alimenta-se de si próprio....e lembrem-se, que o vosso dia-a-dia, é a solução para a paz no mundo!
A vossa opinião, conta! É mais forte do que parece!
É tão óbvio, que precisa de ser dito:
AMEM e AMEM-SE.....FODASSEEEEE!!

Querido Porto

Querido Porto,

Há muito que te queria escrever.
Gostava que soubesses o que sinto por ti.
Tenho para ti palavras muito simples para um sentimento tão complexo.

Ficarias surpreendido com o sem número de vezes que penso em ti. Passo horas no silêncio a reviver as tuas memorias. Gosto tanto de te sentir como de sentir a tua falta. Devo-te tudo e cobardemente nunca tu disse.
 
Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se não fosses tu, Porto, o que seria de mim? Quem seria eu, sem a tua inspiração, sem a tua força, sem a tua valentia? Preferia não viver a viver sem ti. Gosto de mim quando te sinto por perto. Enches-me a alma. Fazes-me bem. Desde há muito que sinto por ti uma atracção invisível, inquebrável, à prova de fogo, de bala, de dor, de lágrimas, de tudo!

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Adoro a forma como me contas a tua história, arrepia-me a cadência com que falas comigo. Quando me sento na tua igreja de São Francisco, perco-me na grandiosidade com que me contas, um dos períodos mais fascinantes da tua história, da nossa história. Nunca me canso de olhar para ti, pelo que foste, pelo que és, e pelo que ainda vais ser.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Sei que falas comigo, e eu ouço-te com atenção. Raros são os dias que não sinto o teu toque, e por vezes queria-te só para mim. Nunca me esqueço dos teus conselhos, naqueles dias em que tudo parecia perdido. Quantas já não foram as lágrimas que me limpaste só porque existes? Lembraste? Agora diz-me, como é que queres que não seja, hoje e sempre, apaixonado por ti? Lembro-me de tantas e tantas vezes, em que te fitava por horas na praça do cubo, e pensava para mim, naquele bom português que me ensinaste: “F####, és lindo e adoro estar dentro de ti!”

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se calhar não me levas a sério, ou ainda não percebeste porquê. Todas as vezes que vou à tua Sé, pasmo-me como se fosse a primeira vez. É mesmo verdade que tem 900 anos? Como é possível? Tão fresca, tão sólida, tão imponente, tão bonita esta tua Sé! Dai espreito sempre para o rio, e fotografo-te outra vez com os meus olhos, antes de começar a descer-te. E logo a seguir, mesmo sabendo, parece que sou sempre surpreendido...com a magistral Igreja dos Grilos. Talvez as vertigens da descida que a antecedem, ceguem as minhas memórias e tornem este meu espanto sempre virgem. E daí, faço questão de me perder na gravidade que me leva por ti, até ao rio. Todos os recantos me encantam, as varandas, as flores à janela, a roupa a secar nos estendais, o perfume da vida das tuas ruas, as tuas linhas brutas e caóticas, pouco pensadas que te dão tanto charme e carácter.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Quanto mais te conheço, mais te quero conhecer. Eu sei que não tens culpa das vezes que te virei as costas, fui eu que te deixei, mas quero que saibas que já sofri horrores de saudades tuas, tive momentos em que ao pensar em ti e no quanto sentia a tua falta, quase parava de respirar. Espero que saibas, que gosto muito de ver o mundo, mas nunca te traí, sempre foste tu, Porto, o dono do meu coração. Já fui feliz sem ti, mas nunca fui tão feliz como contigo, e só queria que estivesses lá para ver como eu me sinto quando estou a voltar no avião depois de algum tempo sem te ver e sem ouvir a tua voz. O meu coração quase arrebenta, quando sinto que estou perto de te voltar a tocar. Colo o nariz à janela do avião, e tento registar todas as formas de como te vejo, e choro! Choro literalmente baba e ranho, choro como um arrependido, choro de saudades, choro ao antecipar o iminente abraço que te vou dar, choro porque ainda estás ai, choro por gostar tanto de ti, choro por ser tão bom sentir a tua falta.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E o Adeus? Como me dói dizer-te adeus. Olho para ti, sem vergonha. Olho-te nos olhos, e faço questão de observar com atenção o máximo de linhas do teu corpo. Quero levar-te comigo, e tento compensar a falta que me vais fazer, as saudades que sei que vou ter sugando-te o quanto posso. Sento-me a olhar para o teu rio, e penso o que seria de mim se nunca mais te voltar a ver, faço-te promessas de amor, que espero que tenhas ouvido, recolho pedaços de ti para levar na minha mochila e faço questão que saibas que se não voltar, tudo o que eu fiz é pelo meu amor por ti. Mas claro, tu sabes que apesar do difícil que é escolher o que mais é que gosto em ti, é no teu mar, no teu oceano, que mais gosto de perder o meu tempo, perder no tempo e perder no teu tempo. Adoro olhar para o teu mar, fascina-me a forma como me inspira, a facilidade com que me molda a personalidade. É ao teu mar, que peço conselhos, é ao teu mar que peço tantas vezes o amparo para me manter de pé, e é ao teu mar que mais me custa virar as costas quando te deixo. Parece que só volto a respirar quando vejo o teu mar de novo. É o teu todo que me faz amar-te tanto, mas não te escondo, que do teu corpo o que eu amo mais é esta massa de água que me hipnotiza.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E se eu te disser que ainda não te disse nada. E se eu te disser que quase não comecei a fazer-te entender porque gosto tanto de ti. Porque me falta dizer-te qual é a tua pedra mais preciosa. Adoro a tua história, o teu centro, o teu peixe, o teu recorte sinuoso, da tua vista da Serra do Pilar, da forma como o teu rio chega ao teu mar e deste monstro musculado que é o teu Oceano Atlântico. Mas nada disto se compara ao quanto eu gosto da tua gente. Adoro a forma como moldaste o teu povo, a beleza da sua personalidade. Bonitas por fora há outras cidades no mundo, embora nenhuma chegue aos teus pés. Mas o que tu conseguiste fazer ao longo de toda a tua história, da pessoa que te habita, torna-te único, impar, imbatível e incomparável. Adoro sentir a tua gente, é mágica a simplicidade do seu puro sangue. Este sangue azul que ferve em pouca água, que vai sempre atrás das emoções, que não se esconde, que se orgulha do que é, e que transborda orgulho em ti. Este teu povo, de pura raça é o melhor que tu tens, é a tua faceta mais difícil de descobrir, mas de longe a mais bonita. Gente boa, gente nobre, gente que dava a vida para defender a tua honra. Pessoas que sem que tu saibas, tudo fazem para que tenhas orgulho nelas. Genuinamente fortes, cheias de vida, cheias da tua vida. Que bonita é esta tua gente. Orgulha-te muito disso, Porto! Não há alma como a alma das tuas gentes.

Gostava que soubesses o que sinto por ti. Gostava que soubesses que te amo, que te adoro, que não sei viver sem ti. Gostava que soubesses que dava a vida por ti, porque me deste tudo o que eu tenho. Gostava que soubesses que tudo o que queria era ser como tu.

Por todas estas palavras e por muito mais....

Gostava que soubesses o que sinto por ti..... PORTO!





Escrita Criativa 5)

Foi quando acordei e não saí do escuro.
Dizem que foi mentira, e eu sei lá! A rotura com a vida como ela era, deturpa-me o discernimento.
Abri, fechei, abri, fechei os olhos, e nada mudava... Perdido no espaço e no tempo.

Vítima de um passaporte apetecível, levaram-me na esperança que lhes valesse o meu peso em ouro. Mas o meu fado, não era para ser assim. Quis a teimosia da convicção de quem nada deu por mim, que a minha dor se perpetuasse no esquecimento, e fosse exemplar. E nada deram a quem faz do mal a sua vida.

Já não sei o que é não ter dor, mas a maior tortura é alimentarem-me e manterem-me vivo.

A alucinante solidão, mostra-me o caminho para a loucura que é, a minha mais doce companhia. Mergulho na completa insanidade, e dou aos braços em correntes e torrentes de pensamentos fantasticamente desprovidos de nexo.

Toda a construção de um ser, desmembrada, amputada, lobectomizada, pela retirada dos mais básicos pontos de sustentação de um humano.

Sofro, mas não choro.

Quase, me divirto na loucura. Quase, fascinado pela descoberta de caminhos labirínticos na mente que me fazem andar, sem me levar a destino nenhum. Quase, perco o sentido da vida. Quase, morro! Quase, perco a alma!

Mas agarro-me com fortes amarras a este “quase”, sabendo que disso depende a minha vida, ou pelo menos uma vida que ainda interessa.

E fujo, fujo, fujo dentro da labirinto da minha loucura, ouço de ecos de “quase” a pulsar no meu crânio, e corro, corro, corro... Mas tenho tanto de determinação, como de desnorte, e quando “quase” perco o folgo, sinto o teu toque.

Rodo-me para o ombro, que me tocaste, e volto a olhar a vida. Vejo a tua cara e sinto-me humano. E nas tuas rugas, nas nossas rugas, sinto o pulso das nossas vidas. Vejo as fotos dos nossos momentos, embalo na música da tua conversa, e grudo no ecrã com os vídeos dos nossos momentos de paixão.

Depois do que terão sido anos, sem te ver, pego na conversa, que nunca se interrompeu, e relembro o quanto gosto de te ouvir pensar, o quanto me inspiras, o quanto de amo.

Sinto-me feliz!


E ao abraçar essa felicidade, sozinho e na escuridão total, aprendo a mais importante lição de uma vida: “Aconteça o que acontecer, a felicidade depende apenas e só da nossa cabeça!”

Escrita Criativa - 4)



Esta é a história do Amor.
De amor? Não! Do Amor.

Quem me contou, viu tudo o que se passou.
Foi o Não. Sim, o João Não. E o Não não mente.

O Não viu o Amor nascer, na mais pura das pobrezas, com uma beleza ingénua de quem nada tem. As ruas moldaram o carácter do jovem Amor.

O Amor tinha aquela magia, de quem ri e faz sorrir. Tinha aquele encanto hipnotizante e contagiante, de quem brilha e faz brilhar. Nem o mais dos sisudos, resistia a anunciar a sua passagem com um: “Olá Amor!”.

Já na escola, o João Não seguiu de perto o brotar do Amor.  O Não não teria estado tão perto, não fosse a sua mais-que-tudo pequena Manuela, companheira de aventuras de meninos e meninas, na mesma sala de aulas do pequeno grande Amor.

Manuela de caracóis loiros, e olhos tímidos deliciava a classe docente. O seu também doce, saber estar, fazia prometer o fim da guerra no mundo, para as delícias do meu amigo Não orgulhoso.

O Amor cresce, a Manuela também, e o amor explode.

No antagonismo, se solidifica a cumplicidade. Crescem um no outro, impregnam-se mutuamente, por todas as linhas do corpo até às impressões digitais.

Mas calma! Desenganem-se! Esta é a história do Amor, não é uma história de amor.

Manuela Não, queria mais da vida, boa cabeça, muita ambição, foram os ingredientes suficientes, para voltar costas ao amor pelo Amor, e seguir sua vida para a capital estudar Direito.

Claro! O Amor escureceu de raiva... Com uma visão da vida mais curta, mais pura, mais intensa... O Amor sem amor perdeu o norte.

Diz o Não, que o Amor já não é humano.

O Amor misturou-se com o álcool, não se poupou às drogas, tornou-se agressivo. Uma besta, um monstro! Com os olhos raiados de sangue rosnava à vida, amedrontava as ruas.

Ocorreu um crime, nas ruas de toda a gente... Apesar de ninguém ter visto, os dedos foram todos na direcção deste horrível Amor.

Enjaularam-no como um animal, antes que a fúria popular desse a sentença antes do julgamento final.

Indiferente com o destino da sua alma, arrasta o barulho das pesadas correntes para dentro dum tribunal em fúria e diz o Amor: “Não fui eu!”

Já ninguém acredita no Amor. Mas a juíza, surpreendam-se, era a filha do João.

E, Manuela Não acreditava no Amor.



Escrita Criativa - 3)





O meu nome é Ahmed. Não desistir da minha cidade, que eu amo, Aleppo, tem sido uma escola de vida.
Dizer que estou habituado, em nada ameniza a minha dor.
Tinha 17 anos, quando o rastilho da primavera Árabe, nos deu forças para ir para a rua, na crença que estava também na nossa hora de ser livres...

Mas aqui, os sonhos pagam-se caro!

A minha juventude, aliou-se à minha rebeldia, na luta pela utopia, e fui atrás das palavras de ordem que ecoavam, nas ruas do meu bairro; “Democracia, Liberdade, Fim da Ditadura”, para me juntar à manifestação dos que respiram o meu sangue. A minha mãe chorava, enquanto agarrava os meus 3 irmãos, e eu sem pensar, disse-lhe o que me ia na alma; “Mãe, vou para a rua, pela Síria! Se eu não voltar, é porque fui com ela!” E foi a última vez que senti o calor da minha mãe. Na minha ausência, um MIG, bombardeou o meu prédio, e com ele desapareceu tudo o que tinha.

A viver na rua, sozinho com o mundo, a minha luta mais difícil, foi prometer a mim mesmo, que nunca levantaria uma arma. Mas luto com a coragem inigualável de quem já não tem nada a perder.

Escrevo.
Leio.
Faço escrever.
E faço ler.

Aleppo despiu-se da sua alegria milenar, e viu fugir as suas mães e seus filhos, para bem longe dos seus horizontes, para bem longe dos presentes explosivos que recebe dos céus.

Eu escrevo e leio por quem o não sabe fazer, e todos os dias luto contra as probabilidades de quem entra e sai da cidade, para que o amor, os carinhos, as saudades, e os manifestos de esperança se façam chegar, entre a cidade e parte das suas gentes fugidas, nos campos de refugiados que cresceram como cogumelos na fronteira.

Mas aprendi, que viver é perder.

Já há muito, que não temo pelas bombas, mas o peso das cartas que carrego, não pára de aumentar. Todos os dias, vejo a dor das mães que cavam fundo, a ferida de quem perdeu um amor, o desespero das mulheres, que nunca mais terão quem lhes alimente os filhos.

Aqui os sonhos pagam-se em lágrimas, em sangue, em vidas.

E todos os dias me pergunto, com quantas vidas se escrevem as palavras, “DEMOCRACIA, LIBERDADE, FIM DA DITADURA”, nas terras da minha amada Síria?


Desistir? Não, obrigado!

Escrita Criativa - 2)





         Acordei num Sábado, ressacado e chateado com a noite anterior e com a vida em geral. Era tarde de mais para me sentir saudável, e demasiado cedo para não sair de casa... Era o momento para assumir algumas rotinas, para não perder o norte da vida. Tomo um banho e visto uma roupa qualquer.... Tenho um plano, é dizer a mim próprio que “está tudo bem” e refazer esse plano, a cada meia hora.
Não sei bem o que fiz ontem, mas hoje vou fazer melhor. Entro no café de sempre, abro o jornal, para me distrair com as letras grandes, enquanto tento acordar para a vida, ainda demasiado intoxicado para fumar um cigarro. A funcionar por puro instinto, ao passar os olhos na chave do Euromilhões, meto a mão ao bolso de trás, e alcanço o papel do dito jogo que cria excêntricos, com a ponta dos dedos da mão, que entretanto ficou cheio de tabaco e pedaços de mortalhas....
Não! Não posso acreditar! Arrebento por dentro, mas não me desfaço. Aguento a cara séria enquanto sinto a energia do meu corpo a multiplicar-se de uma forma exponencial e a transbordar por todos os poros do meu corpo. Fujo do café para refazer o meu plano. Não “está tudo bem”, está tudo inacreditável e espectacularmente bem!
Ora bem, o meu plano: comprar aquele carro que não anda, desliza ou se calhar compro três. Vou comprar aquele palácio em cima do mar, e dar festas todos os dias, cheio de amigos e aviões de mulheres de todos os países eslavos que me lembrar do nome. Comprar um jacto e mergulhar em todas as ilhas do planeta. Nunca mais vou trabalhar, nem eu, nem os meus muitos filhos que vou ter de várias mulheres.
Desaceloro as ideias, e olho para o papel. Será isto que me vai fazer feliz? Qual o valor de um carro que nos caiu nas mãos sem esforço? De que vale o dinheiro, que não representa o nosso suor? Que amores são esses comprados á medida, alimentados a dinheiro sem história?

Foi preciso estar tão perto de tudo o que achava que queria, para saber que não era aquilo. Nunca vi o meu plano de vida tão claro. Rasgo o papel, e tomo a decisão de ir à luta, com a certeza que a felicidade é o caminho e nunca o destino final.