Com Calma

Com Calma

Calma, com a tua Alma,
Tu tem Calma, com a Alma.
Vai devagar,
Seja para onde fores, vai devagar.

A boa Alma vai devagar.
Não queiras engolir o Mundo.
Tem Calma,
O Tempo mostra-te tudo mais belo.

Tem calma que o Tempo trata de ti,
O Tempo trata de todos,
E melhor cuida se lhe deres Calma.
Tempo e Calma para a tua Alma.

Aqui chegaste muito à pressa.
Repete, mas agora com Calma.
Se não confiares no Tempo e perderes a Calma,
Talvez nunca mais encontres a tua Alma.

Confia no Tempo, com Calma.
E nunca perderás a tua boa Alma.


Sofre devagar, para amares mais (o) Tempo.



Rep. Centro-Africana 11.0 - Delícias do Céu


A experiência africana é um mundo de descobertas e surpresas. E este coração africano que é a Rep. Centro-Africana simboliza bem o espectro de magia e aventuras com que nos deparamos. Soa a cliché, mas tudo é diferente. A cor da terra alaranjada, o céu límpido que nos desenha pores-do-sol de cores inimagináveis, os tons de verde, o sabor da fruta, a intensidade das tempestades... É uma experiência a 360º de cores, cheiros e sabores que nos fazem levitar em sensações completamente virgens, quase todas elas maravilhosas... E há vida, há muita vida. Os lagartos com cores exóticas que se passeavam pela maternidade de Bangui, as baratas gigantes que pareciam transgénicas no quarto de banho da nossa casa, e outros insectos de todos os tamanhos e feitios, que eu nem sei pôr o nome... Mas num belo dia, fui surpreendido com um fenómeno absolutamente inédito e insólito para muita gente.
 
A casa onde eu vivia em Bangui, tinha muros bem altos. E num final do dia comecei a ouvir uns barulhos algo estranhos junto a um dos cantos murados, perto do meu quarto... Como Bangui é muito perto do equador, é sempre 12 horas de dia e 12 horas de noite... Eram umas 19.00 mas já estava bem escuro. Estava a ler um livro no meu quarto, quando começo a ouvir um concerto de insectos a esvoaçar de uma intensidade que até assustava... A primeira reacção é claro, medo. Era um Bzzzzzzzzzz, muito intenso como se fossem abelhas... e da janela do meu quarto, na escuridão (mas com luzes de presença) parecia-me ver uma nuvem de insectos com vida própria... Logo de seguida com enorme entusiasmo apareceram os guardas da nossa casa, hipnotizados com o acontecimento... Eram térmitas voadores.
Centenas, milhares ou milhões, é difícil dizer, era uma nuvem de térmitas voadores que num devaneio colectivo se encurralaram naquele canto da casa e numa entropia total suicidavam-se contra as paredes como se tivessem aterrorizados, hipnotizados ou possuídos por algum demónio que os fazia querer que a morte era o melhor remédio.
Este espetáculo consiste então numa nuvem que vai perdendo densidade à medida que os bichos se vão esborrachando contra a parede e caindo no chão mortos ou atordoados... E os guardas de olhos arregalados vieram munidos de baldes de água que atiravam para a nuvem em movimento, para a parede da morte, e para o chão garantindo assim que os insectos morriam mesmo e não esvoaçavam para lado nenhum, para depois os recolher a todos num balde.
Foi dos acontecimentos naturais ao vivo mais incríveis que já vi até hoje.

Até este dia, para mim, apenas associava os térmitas aquelas pirâmides gigantes que já algumas vezes tinha visto em planícies africanas, e que são conhecidas pela sua elaborada arquitectura e minuciosa construção de cidades de grande complexidade, onde tudo isto é conseguido graças a uma sociedade altamente organizada e hierarquizada, lideradas pelo regime totalitário de um rei e uma rainha. Acontece que este nobre casal que acasala para a vida que pode ir até 20 anos, perfilha milhões de outros térmitas, uns são soldados outros trabalhadores... E há uma pequena percentagem que adquirem capacidade de se reproduzir e com isto ganham asas, que são apenas temporárias. E num determinado click dado por alterações de temperaturas ou chuvas, saem da sua colónia em massa para encontrarem outras colónias e continuarem o ciclo. E por vezes o seu percurso é sabotado por uma luz, ou um obstáculo que lhes altera o plano por completo.

E depois de ter estudado um pouco sobre o assunto foi a leitura com que fiquei deste fenómeno de suicídio colectivo, que me fez pensar bastante sobre alguns mistérios da mãe natureza. Certo é que entre os que suicidaram, os que os guardas mandaram a baixo com a água, e os que perderam as asas por natureza, encheram baldes de térmitas como quem apanha dinheiro que cai do céu, porque na verdade a dimensão do milagre, bem romanceado resume-se a isso: riqueza que cai do céu.

No fim do espetáculo, alimentado pela minha curiosidade aproximei-me da cabaninha dos guardas, que não demoraram a preparar a iguaria. Nada mais fácil de cozinhar. Só é preciso fogo e uma frigideira. Os térmitas libertam uma espécie de gordura que os faz deslizar com suavidade numa qualquer frigideira ou panela. E depois é pôr uma pitada de sal e já está.
O que também não tem preço é a cara de felicidade dos guardas centro-africanos, pelas delícias que inesperadamente lhes caíram no prato. Há muita gente que morre de fome na RCA. Há muita gente que não come todos os dias neste país. Há muita gente que come só uma vez por dia. Há muita gente que só muito raramente come carne ou peixe. E estes térmitas são uma iguaria. Riquíssimos em proteínas, com um pedaço de pão fazem uma refeição maravilhosa e nutriente.
Como estava com o nariz dentro da sua casinha, ofereceram-me a provar, mas surpreendido, meio receoso, e sem querer roubar comida a quem tem pouca, tive a reacção instinctiva de recusar... e dei meia-volta algo arrependido por não ter sido mais audaz.

Mas no dia seguinte ao voltar do hospital, disseram-me que tinha uma surpresa no frigorifico. E lá estava, um bom trato cheio de térmitas fritos no dia anterior. Agora já não ia vacilar... Não gosto de deixar nada por fazer. Viajar, descobrir, explorar, conhecer, crescer, ser um deles por uns momentos é tudo parte da vida, como eu a gosto de viver. Ainda ofereci aos meus companheiros de casa a partilha desta experiência de sabores exóticos, mas ninguém quis correr o risco.


Sozinho então. Nem hesitei, 3 ou 4 lá para dentro. E rapidamente foi uma mão cheia. Que maravilha. Que delícia. De uma consistência muito crocante e estaladiça, salgadinho e imensamente saboroso. Intenso, forte a ponto que ainda me durou por uns dias. Cada vez que chegava a casa “mandava a baixo” uma mão cheia deles como aperitivo e soube pela vida, estas saborosas delícias vindas do céu.


Rep. Centro-Africana 10.0 - Abortos Clandestinos


O aborto a meu ver é algo de difícil avaliação ética e moral. Eu sou a favor de todo o tipo de liberdades individuais até ao momento em que interferem com a liberdade de outro(s). E do ponto de vista científico tenho muita dificuldade em definir o momento em que duas células ao se juntarem são consideradas uma vida. E por isso resolvo este dilema interior numa teoria de mal menor. Sou tendencialmente a favor, porque não vejo tanto sofrimento ao “matar” um conjunto de células, e vejo bastantes inconvenientes em trazer ao mundo um ser humano não desejado. Mas repito, considero perfeitamente discutível e percebo boa parte dos argumentos de quem tem uma opinião diferente da minha. Considero também que esta mesma questão tem visões e análises diferentes consoante o ponto do planeta em que nos encontramos. No mundo pobre e sub-desenvolvido, a pobreza extrema, a fome infantil, a violência sexual, a ignorância, a fragilidade da mulher, doenças transmissíveis, levam na minha opinião, a que toda esta questão seja mastigada e digerida de uma forma muito diferente.

Acho também importante trazer para análise algo que me parece, pouco discutido na sociedade civil e política mundial. A sobrepopulação do planeta. Num mundo cada vez mais atento ao todo, e ainda bem que assim é, com cada vez mais reflexões ambientais, sobre as alterações climáticas, a  poluição do planeta pelo plástico e por aí fora... questões de uma importância gritante e de extrema urgência. Mas parece-me sub-discutido algo que de alguma forma é o pano de fundo de todos estes problemas. Somos demasiados. E a crescer de uma forma desmedida!

Alguns dados para reflectir:
- Depois da revolução industrial houve um enorme crescimento da população e em 1800, atingimos 1 bilião de pessoas.
- Em 1930, 2 biliões
- Em 1960, 3 biliões,
- Em 1974, 4 biliões,
- Em 1987, 5 biliões,
- Neste momento somos 7,7 biliões
- Em 2055, seremos 10 biliões.

Onde é que eu quero chegar? Este “problema” é uma questão planetária que nos concerne a todos e que tem de ter uma reflexão global, à semelhança das alterações climáticas, até porque a sua inter-relação é evidente. O planeta tem recursos limitados, quer sejamos vegetarianos ou carnívoros, esta pressão demográfica vai sempre conduzir a mais poluição, mais aquecimento, mas tensão entre os povos, guerras, fomes, e por aí fora... E sabemos também que a falta de planeamento familiar está indexada à pobreza e à falta de educação, como é tão evidente em alguns países Africanos que duplicam a população a olhos vistos, e também ligado a algumas questões culturais, onde talvez a Índia seja o maior (pior) exemplo. A mim pouco me interessa, se são brancos, pretos, asiáticos ou misturados... A população desta bolinha azul tem de parar de crescer. Temos que estabilizar, equilibrarmo-nos na educação, na saúde, na riqueza, e na felicidade. Sim, é uma grande utopia. Mas se não é impossível, porque não lutar por isso?

Como quase sempre, tenho mais perguntas do que respostas, mas toda esta reflexão é para falar sobre uma das coisas que mais me impressionou na Rep. Centro-Africana, que foi a quantidade extravagante de abortos clandestinos... Porquê clandestinos? Porque é proibido. Porque é que é proibido? Dogmas da fé que nestes locais do planeta me parecem irresponsáveis. Repito: pela pobreza, porque há milhares de crianças a morrer à fome, porque há infinitas violações, porque a ignorância é asfixiante... e por tudo isto, parece-me que a balança do sofrimento entre as duas posições pende claramente para mais dor a sofrimento ao continuar assim, mais ainda depois de ter visto tudo o que eu vi.

Mal cheguei, no meu primeiro dia de trabalho na maternidade de Bangui, deparei como um caso clínico complicadíssimo. Uma mulher jovem em estado crítico, por consequência de um abortamento clandestino. Perfurou o útero e perfurou o intestino. Submetida a várias cirurgias, com infecções abdominais nunca bem resolvidas, enfraquecida, desnutrida e com uma peritonite por resolver... Acabou por falecer passados uns dias... É sempre complicado tudo perceber quando entramos a meio... mas foi logo a minha primeira derrota.

E durante a minha missão foram umas atrás das outras... Literalmente, perdi a conta. Mas as histórias eram/são todas muito parecidas... Por este motivo ou por aquele, queriam abortar, e pela ilegalidade desta interrupção involuntária da gravidez, introduziam objectos pontiagudos através do canal vaginal de forma a entrar no útero, e terminar com a gravidez indesejada. Por vezes faziam-no mesmo sozinhas, mas quase sempre recorriam a estas “abortadeiras” tradicionais que o faziam sabe-se lá em que condições... Chegavam-me relatos de que, por vezes, seriam feitas sobre anestesia geral, para meu grande espanto... Como? Em que condições? Não faço ideia... Que esterilização terão esses objectos? Quantas não morreram? Quantas não morrem e morrerão? Nunca saberei, nunca saberemos... Num país onde a esmagadora maioria da população não tem electricidade nem água corrente, é difícil de imaginar em que condições eram/são feitos estes abortos... O que eu sei é que foram mesmo muitas as que nos chegaram às mãos com perfurações uterinas várias e no seu extremo algumas com perfurações intestinais... Cirurgias por vezes complexas, e por vezes tarde de mais... E estes relatos são da capital, Bangui... o que se passará pelo país fora, onde quase não há cuidados de saúde, e a educação é ainda mais escassa? O que se passará por tanta desta África profunda? Não há números, não há dados, não há estatística... ma sabemos que são mais do que muitas as mulheres que já morreram neste flagelo...

Estes são os meus relatos, com a maior honestidade que consigo. Não pretendo de forma alguma fazer advocacia desta ou daquela política do aborto... Partilhei a minha posição só por uma questão de transparência e honestidade intelectual... Não pretendo defender ou atacar nenhuma posição ou opinião... Pretendo “apenas” mostrar este mundo, que é tão real como o nosso.

Imagino o desespero de uma mulher que tem a frieza e a loucura de se perfurar, sabendo que pode ser o fim da sua vida... É impossível não causar em mim reflexões muito profundas. Os seus olhares, o seu sofrimento, a sua vergonha, a sua fragilidade, eu teimo em não esquecer...

Nós salvamos muitas destas vidas, destas almas perdidas... mas pouco fazemos em relação aos “porquês”... pouco fazemos para que “isto” deixe de acontecer...